Como português recém-chegado à Suíça, enfrentei a realidade de não estar totalmente a par de como as coisas funcionam por aqui, o que me levou a confiar em informações nem sempre corretas, neste caso no terceiro pilar ligado a seguro de vida. Um dos obstáculos comuns que muitos de nós enfrentamos envolve os intermediários de seguros. É comum eles proporem produtos que parecem vantajosos mas que, na verdade, nem sempre são necessários, tudo por causa das comissões que querem ganhar.

Decidi escrever este artigo precisamente por causa dessa experiência. Não estás sozinho nisto; eu próprio fui induzido ao erro por um intermediário de seguros cujo principal interesse era a comissão que podia obter, não o meu bem-estar financeiro. Acabei por perder dinheiro, mas essa experiência ensinou-me uma valiosa lição. Hoje, tenho uma abordagem mais informada e cautelosa aos meus investimentos e seguros, e quero partilhar contigo essa aprendizagem para que possas evitar cair nas mesmas armadilhas.

Antes de mais o que é o terceiro pilar

Primeiro, vamos entender o que é o terceiro pilar na Suíça. O sistema previdenciário suíço está estruturado em três pilares. O primeiro é a AVS (Assurance Vieillesse et Survivants), que corresponde à nossa base de reforma. O segundo pilar é o LPP (Previdência Profissional), uma contribuição feita tanto por ti quanto pelo teu empregador. Por fim, existe o terceiro pilar, uma opção não obrigatória de poupança que oferece vantagens fiscais, permitindo-te depositar uma quantia anualmente.

Quando falamos do terceiro pilar, temos duas escolhas principais. A primeira, e a que eu aconselho, é a solução padronizada através de um banco ou uma plataforma independente, como o VIAC ou Frankly. A outra opção, que não recomendo de todo, é associá-lo a um seguro de vida. Muitas pessoas acabam por escolher esta opção, frequentemente influenciadas pelos conselhos de intermediários de seguros que estão mais interessados nas comissões do que em oferecer a melhor solução para o cliente. E é exatamente isso que pretendo esclarecer neste artigo.

Custos elevados

A principal razão pela qual desaconselho o terceiro pilar associado a seguros de vida são os altos custos envolvidos. Para simplificar: ao escolher esta opção, estás efetivamente a comprar um seguro de vida, que obviamente não é gratuito. Isso significa que uma parte significativa do teu investimento no terceiro pilar é canalizada para cobrir os custos deste seguro.

Em casos de eventos graves, como morte ou invalidez, ter um seguro de vida associado pode parecer benéfico, pois promete um pagamento aos teus herdeiros. Contudo, vale salientar que entre 10% e 25% do que contribuis é direcionado para cobrir tais riscos, diminuindo assim os fundos que estás a juntar para a tua reforma.

Vou dar-te um exemplo pessoal: em 2018, aderi a um terceiro pilar ligado a um seguro de vida, seguindo o conselho do meu “maravilhoso” intermediário de seguros. Olhando para o contrato de base, fica claro que não foi uma boa escolha. Infelizmente, alguns intermediários conseguem vender este tipo de produto através de falsas promessas, e eu acabei sendo um dos que caíu nesse erro. Sem dúvida, foi um dos maiores erros financeiros que já cometi.

A minha apólice

Subrescrevi um terceiro pilar 3a, com um pagamento anual de 6768 CHF. De acordo com o contrato, quando chegar a minha reforma, o capital garantido seria de 209 424 CHF.

Ou seja, fazendo as contas, durante 38 anos, iria pagar 6768 CHF por ano, o que dá um total de 257 184 CHF. O meu capital garantido seria 47 760 CHF abaixo do total que eu teria investido. Portanto, o custo do seguro de vida, assumindo que nada de grave acontecesse, seria de 47.760 CHF – uma quantia significativa, não achas?

Mas agora, o intermediário diria: mas sabes o teu dinheiro é investido e vais ter muito mais do que o capital garantido na reforma.

Os fracos rendimento dos terceiros pilares ligados a seguro de vida

Esta é mais uma das conversas frequentemente apresentadas pelos intermediários que, na realidade, não se concretiza. Costumam prometer que o teu investimento vai gerar grandes lucros. No entanto, a questão complica-se quando o teu dinheiro é investido em fundos que implicam taxas de manutenção altas e custos de acesso significativos. Estes encargos acabam por minimizar os retornos esperados, levando a uma diminuição efetiva do teu capital ao longo do tempo.

Um artigo que apareceu no “Bon à Savoir” – revista muito interessante – mostra isso mesmo e vou deixar aqui uma passagem traduzida diretamente do artigo:

Pensava-se que já se tinha atingido o fundo, mas estávamos enganados. Em 2018, o rendimento negativo tornou-se a norma em todas as apólices de seguros de vida mistos do nosso painel! Com juros anualizados que variam entre -1,2% e -3,9%, as decepções podem ser significativas. Na Allianz, que oferece as menores garantias de rendimento (-3,9%), pode-se acabar com um capital de 80.830 CHF dos 120.000 CHF investidos, o que representa uma perda de quase 40.000 CHF!

Neste cenário, é claro que estes produtos são desastrosos para aqueles que esperam poupar para a reforma. Se o rendimento é mau, é porque as companhias retiram uma parte importante das primas pagas – até 25% – para cobrir o risco de morte, incapacidade de trabalho e despesas administrativas.

O problema é que as seguradoras não apresentam a situação desta forma. Elas fazem de tudo para atrair clientes, baseando-se em previsões significativamente mais otimistas. Como os segurados têm direito a uma participação nos lucros, as projeções são embelezadas pelos excedentes potenciais. No entanto, estes resultados raramente são alcançados. É por isso que os interessados devem confiar no capital garantido para não serem desagradavelmente surpreendidos.

A próxima vez que um intermediário de seguros vier com a conversa dos rendimentos espetaculares do teu terceiro pilar ligado a seguro de vida, podes sempre mostrar este artigo.

Flexibilidade do terceiro pilar ligado a seguro de vida na Suíça

O terceiro pilar associado a um seguro de vida apresenta uma rigidez considerável em termos de contribuições. Isso significa que te comprometes a depositar uma quantia específica regularmente, conforme o acordo estabelecido. Diferentemente de um terceiro pilar gerido por uma instituição bancária, onde existe maior flexibilidade, no seguro de vida estás vinculado a essa contribuição constante. Portanto, mesmo em anos em que possas enfrentar dificuldades financeiras, és obrigado a cumprir com o montante acordado, sem margem para ajustes conforme a tua situação econômica.

Essa falta de flexibilidade pode ser bastante restritiva, pois não permite adaptar as contribuições às flutuações da tua capacidade financeira. Se em algum momento desejares reduzir o valor da tua contribuição no terceiro pilar vinculado ao seguro, poderás enfrentar penalidades ou perdas financeiras significativas. Isso ocorre porque as estruturas de custos e as penalidades por alterações nos contratos de seguro de vida são geralmente rigorosas, resultando em perdas adicionais durante o processo de ajuste das contribuições.

Em contrapartida, optar por um terceiro pilar através de uma entidade bancária geralmente oferece a vantagem de poder ajustar os teus depósitos anuais de acordo com as tuas circunstâncias financeiras atuais, proporcionando uma gestão mais flexível e personalizada do teu investimento para a reforma.

O teu objetivo é voltar a Portugal rapidamente? Vais perder dinheiro

Se estás a planear ficar na Suíça apenas por um curto período, deixa-me dizer-te: optar por um terceiro pilar associado a um seguro de vida não é, de forma alguma, a melhor escolha. Nesta situação, acabas por suportar o custo do risco nos primeiros anos, e se decidires resgatar o teu terceiro pilar mais cedo, o valor que vais receber será bastante reduzido. Basicamente, é como se estivesses a deitar dinheiro fora. E não te esqueças, durante todo este tempo, estarás também a alimentar as comissões do intermediário que te aconselhou lal. Eles geralmente recomendam manter o investimento por vários anos para que valha a pena, mas a verdade é que o intermediário beneficia de uma comissão completa apenas se não terminares o contrato prematuramente.

Será que precisas mesmo do seguro de vida?

Um argumento comum dos intermediários é a vantagem de ter um seguro de vida ligado ao terceiro pilar. Sim, é verdade que existe o seguro, mas é crucial questionar a real necessidade desse seguro de vida. Muitas vezes, esta escolha é apresentada mesmo quando não existem dependentes, como filhos ou cônjuge, tornando-se, assim, uma opção redundante. Além disso, se o teu plano é permanecer na Suíça apenas por um breve período, realmente compensa ter esse seguro de vida? É necessário ponderar se o custo associado justifica a proteção oferecida.

Para além disso, na Suíça, o sistema de segurança social oferece proteção substancial em caso de falecimento, especialmente se estiveres casado(a) e/ou tiveres filhos. Tanto o primeiro quanto o segundo pilar providenciam benefícios significativos para a tua família, podendo suprir as necessidades financeiras em situações adversas sem a necessidade de um seguro de vida adicional.

Caso ainda consideres essencial ter um seguro de vida após avaliar todos estes pontos, opta por uma apólice “simples”, separada do terceiro pilar. Desta forma, terás a cobertura necessária sem gastar tanto dinheiro. Assim, tanto tu como a tua carteira sentirão a diferença positiva dessa decisão.

Conclusão

O terceiro pilar associado a seguros de vida é uma opção bem menos vantajosa do que o terceiro pilar tradicional. Se um intermediário está a insistir para que escolhas esta opção, provavelmente, ele está mais interessado na comissão que irá receber do que no teu bem-estar financeiro. Se, tal como aconteceu comigo, já aderiste a um destes produtos, quero que saibas que há formas de minimizar o prejuízo e sair antes que a situação financeira se agrave. Claro que alguma perda de dinheiro é inevitável, mas por vezes é preferível cortar as perdas mais cedo para limitar o impacto negativo. Irei abordar as estratégias para lidar com esta situação num próximo artigo. Para garantir que não perdes estas informações cruciais, inscreve-te na nossa newsletter.

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